No colo do Quintana

Hoje Mario Quintana completaria 113 anos

Lembro do dia em que minha cunhada chegou com um livrinho de capa amarela, bem usado, e perguntou se eu queria guardá-lo na minha estante. Eu disse que sim: “amo livros”. O livro era fininho e seu título era Nariz de Vidro. O livro é uma coletânea de poemas diversos. Sonetos, hai-kai e microconto compõe a obra. Um dos poemas é A Rua dos Cataventos, que já foi nome de livro do autor.

Eu já tinha estudado Mario Quintana na escola. Pelo menos aqui no RS, desde o maternal (exagero) se brinca com os poeminhas do Quintana. Mas eu nunca tinha prestado muita atenção nos versos. Foi a partir do Nariz de Vidro que eu e os sonetos do poeta da Rua dos Cataventos ficamos íntimos confidentes.

Assim nasceu uma grande admiração pelo poeta alegretense. Uma singela coleção de livros do autor e uma lista imensa de pesquisas nas bibliotecas. Em cada livro aumenta meu carinho pelo Quintana.

No site eBiografias se lê: Mário Quintana (1906-1994) foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Foi considerado um dos maiores poetas do século XX. Mestre da palavra, do humor e da síntese poética, em 1980 recebeu o Prêmio Machado de Assis da ABL e em 1981 foi agraciado com o Prêmio Jabuti.

Na década de ’90, o poeta foi homenageado com a Casa de Cultura Mario Quintana, local aberto ao público onde acontecem muitas atividades culturais. No local funcionava o pomposo hotel Majestic, onde Quintana morou boa parte da sua vida. Também é possível visitar o quarto do poeta, uma réplica do quarto original que Quintana ocupava, ver fotos e conhecer mais sobre a história desse querido autor.

Abaixo, alguns versos que gosto muito.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.

Arde um toco de Vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,

A luz de um morto não se apaga nunca!

Tem verso para crianças…

“Pé de pilão

Carne seca com feijão.

Arreda, camundongo,

Pra passar o batalhão!”

Para apaixonados…

Um dia acordarás num quarto novo

Um dia acordarás num quarto novo

sem saber como foste para lá

e as vestes que acharás ao pé do leito

de tão estranhas te farão pasmar.

A janela abrirás devagarinho:

fará nevoeiro e tu nada verás…

Hás de tocar, a medo, a campainha

e, silenciosa, a porta se abrirá.

E um ser, que nunca viste, em um sorriso

triste, te abraçará com seu maior carinho

e há de dizer-te para o teu assombro:

– Não te assustes de mim, que sofro há tanto!

Quero chorar – apenas –no teu ombro

e devorar teus olhos, meu amor…

Para o tempo que passa…

“De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. 

A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. 

As opiniões dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós; 

não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. 

E, isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar. 

Por fim entendemos que tudo o que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento. 

E só.”

Para saudades…

O circo, o menino e a vida

A moça do arame

equilibrando a sombrinha

era de uma beleza instantânea e fulgurante!

A moça do arame ia deslizando e despindo-se. 

Lentamente. 

Só pra judiar.

E eu com os olhos cada vez mais arregalados

até parecerem dois pires. 

Meu tio dizia:

“Bobo!

Não sabes 

que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo?”

(Naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem biquínis…)

Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens

segredava-me

sempre:

“Quem sabe?…”

Eu tinha oito anos e sabia esperar.

Agora não  sei esperar mais nada

Desta nem da outra vida.

No entanto

o menino

(que não sei como insiste em não morrer em mim)

ainda e sempre

apesar de tudo

apesar de todas as desesperanças,

o menino

às vezes 

segreda-me baixinho

“Titio, quem sabe?…”

Ah, meu Deus, essas crianças! 

Para cada momento da vida existe um Quintana que se encaixa. O que eu mais gosto é aquele que fala sobre a casa da infância, sobre o tempo de ser feliz e cantar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s