E por aqui, nada de novo no front

A tristeza da primeira guerra contada por um jovem soldado alemão

Em alguma madrugada perdida dos meus anos 1990, eu procurava por distração na programação de TV aberta. Parei em um determinado canal. Em preto e branco, alguns soldados se banhavam num rio e brincavam na água como crianças. Umas mulheres jovens apareceram de uma das margens e fizeram sinais de convite para os garotos. Eles se animaram e foram até elas, escondidos. Ao chegarem na casinha do outro lado eles quiseram beijar as garotas mas elas começaram a devorar pães e outros alimentos que os rapazes carregavam. Eles visivelmente se comoveram com aquela situação desesperadora.

Lembro que fiquei muito impressionada com a cena e desde aquele dia penso (eu que moro em um país que nunca enfrentou uma guerra em seu território) como as guerras são cruéis e devastadoras para os civis. Civis que, em geral, nada tem a ver com a disputa da linha de frente e que ficam totalmente desabastecidos e desprotegidos.

Anos depois de ter visto uma parte desse filme, ao entrar para a faculdade, o jornalista e professor Juan Domingues recomendou em alguma de suas aulas – ótimas aulas, por sinal – um livro chamado Nada de novo no front.

Comecei a ler a obra e quando chegou na cena dos garotos no rio e das garotas famintas à margem, eu parei. Fiquei impressionada novamente e voltei a sentir o horror que a cena havia me provocado anteriormente. Na época, interrompi a leitura, retomando-a muito tempo depois. A história era pesada demais para minha insistente desfaçatez disfarçada de inocência.

E foi assim que eu soube o nome do filme que havia me marcado quando eu era adolescente: Nada de novo no front. Publicado com o título original em alemão “Im Westen nichts Neues”, em 1929, o livro foi escrito pelo ex-soldado Erich Maria Remarque. A adaptação para o cinema foi feita nos anos 1930 e recebeu os prêmios de melhor filme, melhor fotografia, melhor diretor e melhor roteiro no Oscar.

Nada de novo no front é um romance que narra a rotina da frente de batalha do leste europeu durante a primeira guerra, segundo a visão de um combatente alemão. O jovem Paul Baumer, de família muito humilde, e outros garotos como ele levados pela emoção de um discurso patriótico e pela remuneração oferecida às famílias, abandonam os estudos para irem à guerra.

“Este livro não pretende ser um libelo nem uma confissão, e menos ainda uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deram face a face com ela. Apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra”.

Estas são as primeiras palavras de uma narrativa emocionante que nos deixa tão próximos das frentes de batalha no sombrio início do século XX. A descrição das cenas, os detalhes, as impressões sobre os cheiros, os sons e os sentimentos das pessoas envolvidas faz desse livro um dos meus preferidos.

Remarque realmente vivenciou os horrores da grande guerra, que durou de 1914 até 1918, e isso nos presenteia com um relato verdadeiro, com certeza. Mas além da veracidade contida no texto, o autor nos leva pela mão até a solidão das barracas dos soldados, ao medo das trincheiras, ao pavor dos ataques aéreos. Somos guiados pelo interior da França e da Alemanha e precisamos caminhar sobre corpos e destroços para conseguir avançar. Somos obrigados a olhar, sem poder fechar os olhos, para pedaços de pés e mãos de garotos muito jovens, interrompidos por granadas e morrendo aos poucos.

Não vou contar tudo pois a ideia deste blog não é fazer resumos, mas saiba que não é por acaso que o Nada de novo no front foi um dos títulos destruídos na infame fogueira de livros da Praça da Ópera, em Berlim, em maio de 1933.

O livro é conhecido pela vendagem de mais de 10 milhões de exemplares e por ser muito estudado ao redor do mundo. E ele continua tendo novas impressões à venda, pesquise. Minha edição é um pocket da L&PM de 2004. Inclusive, em seu site, a editora escreve sobre a obra: “[…] Não eram guerreiros, como os que apareciam nos filmes de propaganda, mas homens maltrapilhos, neuróticos e assustados. Outras obras de ficção que testemunhavam batalhas da Primeira Guerra Mundial já haviam sido lançadas, mas nenhuma parecera aos soldados tão autêntica e reveladora da verdade.”

Os aliados “venceram” a primeira guerra, que terminou com o armistício no dia 11 de novembro de 1918. Escrevo “venceram” entre aspas pois acredito que em uma guerra, nas devidas proporções, todos perdem. Inclusive, defende-se que a derrota alemã na primeira grande guerra foi um dos fatores que contribuiu para o crescimento posterior do nacionalismo alemão e a ascensão, em certa medida, de Adolf Hitler, que veio a aterrorizar o mundo em uma segunda e ainda mais terrível guerra mundial. Existem bons livros e resumos sobre esses dois episódios históricos. Procurem mesmo saber. O conhecimento é a melhor forma de não repetir o terror do passado.

Já pararam para pensar qual é o local que recebe os primeiros bombardeios em uma batalha? Pois um dos alvos iniciais é o abastecimento de água local. Depois, rede de energia elétrica e de combustível. Estradas, grandes prédios, vias e o que resta das cidades vem na sequência… Triste.

O que posso ainda dizer sobre a leitura dessas páginas incríveis é que elas devem ser lidas por TODO O MUNDO! Lidas com calma e entendimento. Existe muito discurso e encantamento sobre as guerras. Novas gerações e países que não vivenciaram massacres militares dão muita atenção às modernidades tecnológicas desenvolvidas durante as guerras mas esquecem das marcas deixadas nas pessoas.

Espero que você goste dessa dica e leia o livro ou assista ao filme.

Para encerrar essa cartinha densa, uma frase do filme Henry & June:

“Obscenidade é a Guerra”.

Ficha

  • Título: Nada de novo no front
  • Editora: L&PM
  • Páginas: 224 – pocket
  • Físico: Sim
  • E-book: Sim
  • Extras: Nada de novo no front (Universal Pictures, 1930)

2 comentários sobre “E por aqui, nada de novo no front

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