Enquanto a noite não chega, fingimos não ver o tempo passar

Um livro sobre a solidão e a brevidade da vida

Um dos meus escritores preferidos é o Josué Guimarães (1921 – 1986). O jornalista gaúcho publicou quase 30 livros entre romance, não-ficção e reportagem. Minha coleção dos títulos dele é modesta, composta por livros encontrados em sebos e nos balaios da Feira do Livro de Porto Alegre. O título que mais me marcou como leitora é o Enquanto a noite não chega.

Lembro que li esse livro muito jovem, aluna do Ensino Médio. Naquela idade assuntos como envelhecimento e morte não estavam nas pautas. Lamentável que não falemos quase sobre as horas “derradeiras”. Envelhecer, para a cultura ocidental, é um tabu. Não falamos, não pensamos, não queremos. Talvez o assunto nos assuste por representar o caminho sem volta do tempo que passa.

Acredito que tenha sido por isso que o livro me marcou tanto. Ele conta a história linda de dois idosos que conversam e lembram da fartura do tempo passado e de como as coisas eram antes do seu filho morrer na Revolução de 1930. Sem mantimentos e em uma vida simples, esquecidos em algum canto anônimo do mundo, eles celebram a espera pela noite com um pão quente. A cena tem um passo lento e um clima melancólico de interior. Cada personagem é tão sozinho que a gente fica pensando se eles estão realmente vivos… ou será que não?! Só de lembrar já me emociono.

Ao longo da leitura eu tinha vontade de entrar no enredo, abraçar o Eleutério e a Conceição e dizer que não estavam mais sozinhos. Minha vontade era fazer um pão também, cobrir de manteiga e geleia e levar até eles. Eu queria muito resgatá-los da solidão e da saudade. Em muitos momentos chorei por não poder impedir a noite de chegar… nem para eles, nem para mim, nem para meus afetos…

Só posso dizer: leia! O livro mexe com o que há de humano ainda dentro da capa social que vestimos todos os dias.

O texto é tocante, como costuma ser a escrita de Josué Guimarães, e faz a gente refletir a passagem da vida e pensar sobre a inevitável chegada da morte. E não só isso, também começamos a pensar sobre como queremos estar em nossos últimos dias. Eu, pelo menos, comecei a pensar nisso a partir dessa leitura. Hoje busco outras filosofias de vida para tentar dar sentido à minha existência.

O livro é curtinho, minha edição é bem usada, de 1992, da L&PM, e tem pouco mais de 100 páginas. É bem fácil de encontrar exemplares pelos sebos e na internet.

Enquanto a noite não chega já virou filme, especial, peça de teatro etc. É um texto maravilhoso! De uma beleza única e quase indizível. Um texto não para ser lido e sim sentido.

O livro começa com essas palavras do Mário Quintana:

Calam mais alto, mais fundo
as pequenas alegrias…
E o pão dos últimos dias
já é um pão do outro mundo!

Ficha

  • Título: Enquanto a noite não chega
  • Editora: L&PM
  • Edição: 8ª
  • Ano: 1992
  • Páginas: 118
  • E-book: Sim
  • Físico: Sim

Um comentário sobre “Enquanto a noite não chega, fingimos não ver o tempo passar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s